Quarta-feira, 11 de Maio de 2011

Cordel Encantado’: a vitória da fábula

Boa audiência da novela das seis da Globo,uma super-produção com estética cinematográfica, mostra a força das tramas de época e, principalmente, da realidade de fantasia feita para consumo e entretenimento.

 

 

Beatriz Souza

A novela Cordel Encantado encontrou uma fórmula mágica. Nela se misturam elementos de contos de fadas, toques de misticismo, reis medievais e cangaceiros nordestinos. A  tecnologia também tem um papel importante: o folhetim é uma super-produção, com toques verdadeiramente cinematográficos.E o público reagiu bem. Há menos de um mês no ar, Cordel Encantado registra uma audiência média de 26 pontos e picos de 28 - resultados excelentes para o seu horário. Na grade de programação da Rede Globo, o horário das seis sempre foi reservado às novelas amenas, que acenam com uma fuga da realidade. Cordel Encantado obedece a essa tradição, ao mesmo tempo em que a renova de maneira notável. É o tipo de façanha que não se alcança todo dia. Como se disse, uma fórmula mágica.

Cordel Encantado conta a história da princesa Açucena (Bianca Bin), do reino de Seráfia do Norte. Ela foi separada do pai quando bebê durante uma viagem ao Brasil, devido ao plano da divertida vilã Úrsula (Débora Bloch) de fazer de sua filha a futura rainha. Na cidade de Brogodó, onde é criada por uma família adotiva, ela se apaixona por Jesuíno (Cauã Reynold), filho – também apartado – de Herculano (Domingos Montagne), o rei do cangaço. Essa mistura de cangaço e realeza num universo atemporal, digna de Ariano Suassuna, conduz o espectador à fantasia. “Ao unir a corte europeia ao sertão nordestino, a novela trabalha aspectos da imaginação popular”, diz Mauro Alencar, autor de A Hollywood Brasileira – Panorama da Telenovela no Brasil (Senac).

1. Imaginário coletivo – e divertido

 

Divulgação

A novela combina elementos de contos de fada e de literatura de cordel, como a presença de reis, cangaceiros e um profeta e arquétipos como o do mocinho que vence barreiras para ficar com a mocinha (vide tópico 3). A mistura, semelhante à operada pelo escritor Ariano Suassuna em obras como O Auto da Compadecida, revolve o imaginário coletivo, atingindo, com humor e leveza, referências da infância do telespectador. O resultado é a sua identificação com a trama. E também aquilo que alguns especialistas chamam de “escapismo da realidade”. O entretenimento puro – que a novela das nove, Insensato Coração, com sua overdose de realismo não permite – agrada especialmente ao público do horário, feito de senhoras e estudantes. Até os vilões são engraçados.

 

2. Fantasia de liberdade

Cordel Encantado não tem tempo nem espaço definidos. Uma parte da trama se passa no inexistente reino de Seráfia e outra, na cidade de Brogodó. O primeiro local remete à Europa medieval ou da época do Antigo Regime, quando os países europeus se formaram e consolidaram sob o comando de monarquias. O segundo, ao Nordeste brasileiro da primeira metade do século XX, quando o cangaço grassava na região. A liberdade em casar tempos distintos, sem determiná-los com clareza, rende à novela uma dinâmica própria. O que importa é a verossimilhança interna da trama, que representa quase um universo paralelo.

 

3. Romantismo à moda antiga

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O principal par romântico da trama de Thelma Guedes e Duca Rachid, a princesa Açucena (Bianca Bin) e o filho de cangaceiro Jesuíno (Cauã Reynold), enfrentam uma série de adversidades para dar certo. E tudo indica que, como nos contos de fada, o casal só vai ficar junto no final – e então o telespectador terá de supor que viverão felizes para sempre. Romântica também é a representação do cangaço, visto mais como ninho de heróis do que como berço de vilões. Representação colada à da literatura de cordel e, também, similar à imagem quase mística que o movimento ainda tem no país.

 4. Técnica de cinema

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Cordel Encantado é a primeira novela gravada em 24 quadros, tecnologia na qual a câmera tira 24 fotos por segundo, como nas filmagens de cinema – em geral, as novelas são gravadas a 30 quadros por segundo. A Globo, aliás, vem investindo alto na novela, a primeira do horário a ter cenas gravadas fora do país. A viagem para a França, onde se passaram as sequências do reino de Seráfia, envolveu uma bagagem de quase 70 malas carregadas de figurinos de época. No Brasil, oito bordadeiras foram contratadas exclusivamente para elaborar o figurino do cangaço.

 

5. Criatividade

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A dupla Thelma Guedes e Duca Rachid combina duas características benéficas a uma novela: estofo e gás. Da turma de novos dramaturgos da Globo, elas estão em seu terceiro folhetim, com disposição de criar uma marca e ganhar espaço na emissora. A criação de uma marca se faz a partir de escolhas: uma delas é apostar no Nordeste, terra de Thelma, e em referências literárias, também terreno da autora, que é formada em letras. Mas compor um elenco rico como o de Cordel também é um investimento de autoras e emissora. Aqui, vale destacar a presença do diretor teatral José Celso Martinez Correa, que nunca havia feito novela na vida.

 
 

A combinação de referências, entre as quais se incluem também os contos de fada e o cordel, forma de literatura popular nordestina, leva o espectador a fantasiar - sem contar a feliz coincidência com o caamento real, que aumenta o clima fabuloso da trama. Propõe a ele uma ruptura com o realismo, gênero que vem dando sinais de esgotamento no horário das nove. Esses mesmos elementos de cordel e fábulas remetem a formas de viver que não se questionam, porque já estão dadas há anos – e até há séculos. Num tempo em que até as relações familiares mais básicas passam por transformações, esse contato com o passado e a tradição - ainda que num pequeno intervalo no final da tarde - pode ser uma espécie de bálsamo.

Imaginário – As referências ao cordel estão por toda a trama. A história de Açucena, uma princesa perdida que descobre quem realmente é quando o rei de uma localidade distante vem procurá-la, é recorrente nas histórias de cordel. Segundo Aderaldo Luciano, coordenador editorial da editora Luzeiro, especializada em cordéis, a identificação do público com a novela se dá porque são personagens do povo – sempre vistos com certa benevolência pelo espectador.

Outro fator de sucesso, levantado por Esther Hambúrguer, professora de audiovisual da Universidade de São Paulo (USP), é o a mitologia em torno do cangaço, que ajuda a despertar o interesse do público. “O cangaço é uma referência forte na cultura nordestina e está espalhada por todo o país”, afirma. Os cangaceiros são presença fundamental no cordel, em que são representados como heróis. “A novela retoma a valorização do cangaço na cultura brasileira.”

História da história – Não menos importante para explicar o bom desempenho da novela das seis é o talento da dupla Thelma Guedes e Duca Rachid. Embora retrabalhem temas antigos, por vezes arcaicos, fixados no fundo do imaginário social, elas conseguem injetar vivacidade nas tramas. Colegas são unânimes em elogiá-las.

Cordel Encantado é a terceira parceria das autoras. A novela passou cinco anos na gaveta, à espera do aval da produção da Globo. Quando a dupla apresentou à emissora a sinopse da trama, o canal estava se decidindo a dar um tempo nas novelas de época. Haviam acabado de ser exibidas Alma Gêmea (2005) e O Profeta (2006) e Desejo Proibido (2007) estava a caminho – todas ambientadas na primeira metade do século XX.

O remake de O Profeta, trama espírita de Ivani Ribeiro exibida pela primeira vez nos anos 1970, foi, aliás, a inauguração da parceria entre Thelma e Duca. Uma estreia bem sucedida: com média de 32 pontos no Ibope, ela chegou a empatar com Paraíso Tropical, que na época estava no ar no horário das nove. Cordel Encantado faz algo semelhante, passando em audiência a novela das sete, Morde & Assopra.

Depois da mística O Profeta, a emplacou mais um sucesso no horário das seis, Cama de Gato, espécie de conto de fada moderno estrelado por Camila Pitanga e Marcos Palmeira. Ali, alcançaram 24 pontos de média no Ibope, número que agradou à Globo. Com Cordel Encantado, a emissora sorri ainda mais. É a vitória da fábula.

publicado por artedetodos às 13:58
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